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Denilson Cardoso de Araújo

POESIA, ARTE E CIA



 
 

NÃO PERCA ESTE FILME!

     Se você gosta de cinema à vera, à moda antiga, sem defeitos especiais, ou seja, boa câmera, cortes precisos e interpretações deslumbrantes, não perca: "DÚVIDA", de John Patrick Shanley. Atuações soberbas, inesquecíveis, de Philip Seymor Hoffman e da atriz mais constante da história do cinema, a genial Meryl Streep.

 

     Não perca, também, porque a trama central, além de contemporânea (embora o filme se passe nos anos 60), reserva surpresas... e dúvidas!

 

     O grande "duelo" interpretativo que antecede à cena final - um tour de force de cerca de 12 minutos entre Hoffman e Streep - é antológico e devia ser visto, revisto e estudado, por alunos de cinema, de teatro, de psicologia, de direito e de tudo o que diz respeito à alma humana, enfim. Claro que é uma peça de teatro adaptada, o que, neste caso, foi feito com êxito, sensibilidade e adequação de meios, pelo próprio autor/diretor.

 

     Ah, em tempo: isso nem sempre é boa referência, mas quatro atores do elenco foram candidatos aos Oscar de ator e atriz principal ou coadjuvantes. Neste caso, é credencial! Filmaço! Pra ver, deleitar-se e refletir. Muito.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 20h26
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SuKanta - Sucata que encanta

 

 Hoje, agora há pouco. Centro do Rio. Largo da Carioca. 13 horas.

          Cinco pessoas meio esfarrapadas, roupas puídas, uma menina de pés descalços, uma garota de rua crescida. Abrem uns sacos. Desembarcam sob o sol tímido uns restolhos de ferro velho, sobras de lixeira. Uma frigideira cascuda de ferrugem. Um latão de tinta amassado. Um tonel velho. Colheres. Madeiras em toco. Dali há pouco, mágica! A cinderela-sucata vira uma bateria!!! Com arrumação convencional. Bumbo, pratos, taróis... Tudo lata velha. Ah, tem também um microfone que funciona só quando quer. Entre apagões sonoros e algazarra espalhada num alto-falante tipo buzina de carrocinha, ouve-se algo parecido com uma embolada-reggae-samba-funk. Os silêncios, dizia John Cage (e outros tantos mais qualificados), são música, afinal. Os ruídos e microfonias (diria Tom Zé), também.

             O fato é que se derrama um ritmo bom, gostoso, brasileiro, de escravos de ganho, cantando seus sembas na feira, de trabalhadores em festa de colheita, de gente dos portos, das vilas, comemorando com seus trapos, suas vestes bispo-do-rosário, costuradas de rosas de barbante vermelho, um ritmo bom, gostoso, brasileiro, de hino nacional mascado que nem chiclete, essa coisa bonita de letra incompreensível que encanta: "Osvirudus poranga marchipláceta... Dus povherótio bravo returbântchi... Ius sol da liberdadimraius fúrgidos..." e por aí indo, essa letra incompreensível (que não precisa mudar nada, parem com isso, acadêmicos!) que frente ao verde-amarelo faz inchar o peito do brasileirim mais mirrado, essa coisa que encanta, e que agora identifico ali naquele rock-embolada mais embolada que já vi, mas que encanta, tanto que pára o mundo todo ali. no Largo da Carioca, esse palco iluminado de tantas epopéias...

             A menina começa a sambar um requebro durinho, de pé miudinho, e um dos caras, marcando o compasso com um triângulo de vergalhão (juro!), começa a dançar de passo marcado. E cantam, cantam, e o povo pára, as secretárias, os juízes, os pipoqueiros, os namorados, uns japoneses que filmam tudo, claro, e uns adolescentes de mochilas de vento... vai o Rio de Janeiro, parando ali, em volta daquele sol posto no Largo, com todas as suas lições. Os esfarrapados viraram príncipes, uma corte de nobres artistas, saltimbancos mágicos, cheios de súditos, alguns, bem vestidos em ternos, tailleurs e jeans caros.

           Ah, amigo, tua vida é uma lata velha, uma frigideira rachada, umas canecas de folha? Faz assim: amarra umas nas outras, vai pro sol e... batuca!... Batuca e canta... Batuca que encanta. Pra Deus nunca há sucatas. E aquela alegria na miséria mais tosca, é Deus semeando.

         Durante a execução do show inusitado, teve gente requebrando, claro, estamos no Rio! Quase todo mundo sorrindo. Ao final, choveram aplausos. E moedas. E saí do Largo da Carioca, esse meu mestre-escola de tantas décadas, com mais uma lição aprendida.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 15h31
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CAFÉ DOS ANCIÃOS, O filme e a vida - Não há direito sem respeito que o preceda.

                     Assisti "Café dos Maestros", o filme argentino de Miguel Kohan, um documentário de poesia reverente, mas que parece um épico dos cabarés e alcovas. Há personas inusitadas. Uma cantora que se chama... Lágrima Rios! Cantores octogenários. Pianistas lendários. Orquestras algo impiedosas, nos acordes que esfaqueiam a medula.

                    Ali está o tango dos pobres, a música das calles, o híbrido de som negro com orquestra européia, o pano de fundo de romances violentos, tragédias de amor, ou apenas de ternuras  saudosas, vestidas de percal. Há no tango uma virilidade harmônica, uma melodia dramática e a plasticidade teatral da dança. Por vezes não parece dança, mas se faz duelo. A mulher, com a rosa no cabelo. Fêmea fatal. O homem, com chapéu tombado à testa. Poeta cafajeste. No fundo, a aventura humana, com suas máscaras, desvendando seus mistérios.

                    As cordas gemem. O bandoneón ataca. Pousado no colo do músico idoso, aquela caixa sanfonada, batida em ritmos e esmagada em foles, é um drama à parte. Fechado, um cubo que guarda lágrimas. Aberto, uma serpente geométrica, que se retorce e derrama melancolias brilhantes.

                    Gustavo Santaolalla, músico argentino, é um anfitrião discreto, um fã, na verdade,  deslumbrado pela oportunidade de imortalizar ídolos e gênios tantas vezes esquecidos.

                    Muitas lições no filme. O respeito à arte, acima de modismos de mercado e ocasião. A reverência aos velhos, apesar da tendência ao esquecimento, ao abandono, ao desprezo pelos  idosos nessa sociedade pós-moderna que opta por uma adolescência eterna. Peter Pans idiotas, em que o mercado nos torna.

                    Vimos antes esse bonito respeito no filme  "Buena Vista Social Clube", com Win Wenders trazendo ao mundo os grandiosos músicos cubanos. Temos visto isso nos preciosos trabalhos de Marisa Monte com a Velha Guarda da Portela. Mas me recordo do encantamento juvenil quando conheci essa mesma reverência em Caetano cantando Vicente Celestino (a dramática "Coração Materno"). Há também um belo, imortal e reverente registro de Chuck Berry, feito por Keith Richards. Claro, duas encrencas ambulantes reunidas, brigaram muito, mas o resultado é lindo. "Hail!Hail!Rock 'n' Roll" é o nome do documentário em que foi registrado o show-celebração promovido pelo guitarrista dos Stones.

                    Dentre os dez mandamentos entregues a Moisés está "HONRAR PAI E MÃE".  O respeito aos anciãos foi, durante milênios, o pilar de muitas sociedades. O revival dos modismos orientais ou do mito do "bom selvagem" chega a ser ridículo, em alguns segmentos, hoje em dia, porque querem apenas o modismo exterior, mas desprezam, exatamente, um dos núcleos filosóficos positivos - nem todos o são - de tais culturas: o respeito à sabedoria e à pessoa dos velhos.

                    Em muitas culturas observa-se a coincidência entre senectude e sabedoria. Especialmente em culturas de tradição oral. Um provérbio africano diz: "Velho que morre, biblioteca que arde".  O velho é o repositório da história, da cultura, da sabedoria acumulada por um povo. Promove a ponte entre o passado e o futuro.

                    Mas, hoje, infelizmente,  despreza-se isso.  E ao arrepio não só do bom senso, mas da própria lei. A Constituição Brasileira trouxe o caminho para o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03).  É certo que o ordenamento buscou, em tempos de jogarem-se idosos na lata do lixo social, garantir o envelhecimento digno. Mas é evidente que cogitar pensões  melhores, lugares nos ônibus, vagas em estacionamentos, não será o bastante para chegar-se ao que realmente interessa.  Essas questões são acessórias. Fazem do idoso vítima (sim, vítima) da caridade social. O tratamos como elo mais fraco. E o são, realmente. Mas ou se resgata a autoridade e a voz do ancião, em nossa sociedade, ou sempre teremos essa postura piedosa, que põe no mesmo saco bichinhos em extinção, crianças órfãs e idosos. Só que estes últimos, deveriam ser os guias, os conselheiros, os patriarcas de tribo. Como a sociedade adolescente não os quer, já que, em geral, velhos são críticos, viveram muito, perguntam mais, desconfiam sempre... estamos desperdiçando nossos idosos.  E os confinamos a uma invisibilidade coberta por eufemismos como "melhor idade", "terceira idade", obrigando-os a, quando muitos ainda poderiam estar produtivos em tantas áreas, passearem em excursões e fazerem ginástica na praça (isso na melhor das hipóteses). Ou então, o que é mais comum, a definharem em quartos e asilos infectos. De qualquer forma, guetos, sufocantes e desumanos estes, mais dourados aqueles, mas guetos, ainda.

                    Precisamos resgatar a auto-estima do idoso, coisa que a lei não faz. Coisa que demanda uma revolução no pensamento ocidental da descartabilidade rápida, de eletrônicos, softwares e pessoas.

                    O belíssimo filme "Chega de Saudade", que Laís Bodansky ambientou num salão de danças, mostra um idoso assim, de bem consigo, o idoso que baila, e que, bailando, ama, sofre, chora, é normal e se constrói como sujeito. Mantém sua identidade. No filme, há um casal quase adolescente que,  frente ao vigor da senectude dançante, descobre-se decrépito. Uma lição.

                    As crises de autoridade familiar, de indisciplina escolar, de corrupção e desleixo estatal, passam pela crise do papel do ancião em nossa sociedade. Este que se envergonha da rejeição e esconde seus cabelos brancos - quando, por bom senso, por exemplo da tradição dos hoje tão reverenciados povos primitivos, por imitação da boa prática de culturas orientais, tão em voga, e até por ordem bíblica ( Levítico 19:32: "Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião") - devia ser ouvido, saudado e amado.

                    Alguém poderá argumentar que nem todo idoso merece assim tanto respeito, porque pode ser um mau caráter, pode ser sido um jovem frívolo que acumulou maldade e desperdício. Concordo. Há Pinochets por aí. Aliás, ainda recorrendo à Bíblia, vemos que até isso é previsto. Salomão escreveu a condicionante: "Coroa de honra são as cãs, quando elas estão no caminho da justiça".  Só pra lembrar: cãs significam cabelos brancos. Mas cabelos brancos, de per si, não operam santidade, é fato. Os perdulários, de bem e de bens, costumam pagar caro na idade avançada. Desprezaram filhos, abandonaram esposas, desperdiçaram fortuna. Não podem pretender serem amados na idade provecta, por filhos que antes renegou. Numa mesa de audiências, tenho visto, pode-se impor a pensão, o sustento, certos deveres materiais. Mas amor, ah, amor não se impõe.

                    O que na vida do jovem de hoje se constrói é que lhe permitirá o respeito dos mais novos, na idade avançada. E, infelizmente, temos observado uma juventude apressada, perdulária, desperdiçando-se em pródigas baladas... E aí, voltamos ao mesmo ponto. O jovem de hoje menos errará, melhor caminhará, se receber  as luzes do ancião, cujos caminhos lhe podem tanto ensinar.

                    Por isso, senhores operadores do Direito, façamos aí nossas ações para garantir o transporte gratuito aos idosos, que o Ministério Público aja para impedir o não cumprimento da preferencialidade ao idoso em filas, estacionamentos e atendimentos, exijam os governos providências para impedir os abusos dos planos de saúde, que os juízes condenem instituições de saúde que negligenciam o atendimento aos idosos, que as repartições respeitem as prioridades legais, que os motoristas de ônibus sejam repreendidos quando deixam  velhinhos abandonados nos pontos... e que sejam prazerosas as viagens de melhor idade, que tenham bom repertório os bailes de terceira idade, que seja saudável o tai chi chuan pelas praças, mas, que acima, de tudo, construamos genuíno respeito, reverência e aprendizado.

                    Que os velhos não precisem ter vergonha da sua velhice. E que aprendamos com eles, os registremos em lentes imortais de nossos olhos, de nossos diários, de nossos livros de família, de histórias à beira da mesa do almoço. Assim como em "Café dos Maestros". Que sejam, nossos idosos, nossos mestres. Não os objetos da nossa piedade. Deixarei uma sugestão. Neste ano que se encerra, meus pais contaram, ambos, 08 décadas de existência. Redigi para a família pequenas biografias contando um pouco de suas lutas, seus dramas, suas vitórias. Importante para os jovens, netos, bisnetos, saber que aquele casal de anciãos tem tanto  a ensinar. Perceber que cada ruga daquela é uma vivência real, uma luta na montanha do Senhor dos Anéis. Importante para os jovens o aprendizado de que não foram eles, jovenzinhos imberbes, ou a Microsoft ou a Nintendo que inventaram o mundo. O mundo é mais velho. Como dizem, ainda os africanos, "nossos pais o viram primeiro". Por isso nos deram estirpe e linhagem. Aprendamos com eles.

                    País de idosos que seremos, construamos desde já o respeito que, certamente, gostaremos, nós mesmos, de receber. Isso só será possível se passarmos a  ver o idoso não como o peso social a ser carregado por todos. Mas sim como o patriarca sábio a ser conduzido em sua liteira de dignidade. Embora não possa mais caminhar à frente da tropa, porque as pernas não mais suportam, embora não mais enxergue tão longe, porque os olhos se vão, ainda traz as palavras mais certeiras, porque vindas de mais longe, banhadas na intempérie, nos ventos da viagem.

                    E quando o idoso sequer palavra tiver, pensemos nele como um símbolo. Aprendamos a ser cuidadores, tarefa tão penosa e difícil, mas tão superior moralmente ao desprezo frio e ao abandono cruel. Que aquele idoso, enquanto puder estar conosco à mesa, ou numa poltrona da sala, que ali permaneça, como um poste de luz. Certamente enxergaremos melhor.

*.*



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 11h32
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FELICÍSSIMO NATAL

 

 

Para uma amiga querida

Minha querida,

Salvo engano, este será um período de alguma dor no peito pra você, como é, sempre, para tantos. É que nos queremos sempre completos, inteiros, e isso significa termos todos os nossos cabelos, ossos inteiros e membros em ordem, nossos jardins conosco, nossas pessoas, nossas âncoras, a rosa da vida, tudo em que nos reconhecemos, sem que falte uma só pétala.

Mas o tempo vai levando umas flores, o vento despenteia algumas sebes e o Natal acaba sendo, erroneamente, para muitos, o tempo de contabilizar, ainda que involuntariamente,  essas perdas. A mesa da ceia onde um lugar não é preenchido, um sorriso que decorava o presépio, uma voz que cantava um gloria patri... e que silenciou. Eu sei que dói.

Mas o bacana do Natal é que manjedoura é essa lição mesmo,  de despojamento. De perder para ganhar, porque a perda nos constrói. Estar fora do aconchego de Nazaré, terra da Anunciação, pra encontrar abrigo entre anjos, num estábulo de Belém.  O cocho de boi que vira berço de Rei do mundo. Desvestir-se de uma realidade pra ingressar em outra, não menor. Maria e José fugindo num jeguezinho, pro Egito, com um Deus ainda não desmamado de estrelas... A família grande, completa, pra trás. Um fim. Mas há a estrada nova, um começo.

Toda história tem seu Herodes, não é? Por isso, há perdas. Mas veja de outra forma. Só porque há reis perversos, manjedouras e Egitos, só por isso, Salvador existe. De onde: Natal não é tempo de contar derrotas, partidas ou perdas. Natal é dia de fazer na saudável saudade, o inventário do futuro, na verdade. Não é subtração. É soma. É tempo de olhar não a ausência, mas a presença que a ausência deixou. Porque, o que se foi, deixou uma ruga boa em nosso coração, um calo na alma que nos dá sensatez, uma lágrima sempre brilhando no olho, sempre ali, tão ali, concreta, quase que em pedra. Mas preciosa pedra, dessas que nos constroem. Viram lentes, por onde medimos o mundo.  Assim ganhamos personalidade, assim fazemos  nossa Ilíada pessoal, nossa Odisséia que nos levará à Terra Nostra.

Natal nos traduz. E o que parece só dor, é crescimento. Por isso, alegre-se à volta da mesa. Que haja a fartura possível de pão, mas que haja a fartura invencível de alegria. De Alegria: Outro Natal, outra vitória!  Foram-se umas pétalas, deixaram em nós seu perfume. Cumpriram seu papel, deixaram sua marca no mundo. Em nós. Honremo-la, espalhando as palavras que melhoram em fragrâncias o ambiente do mundo. Colhamos o ouro da lembrança, refinemo-lo em jóias de bom viver, aprendamos o conselho do ensinamento guardado, o canto que nos enfeitou o ouvido.  

Quem ouviu Caruso no Scala, ao vivo, vai lamentar porque Caruso não mais gorjeia aqui, na minha sala? Não. Aquele momento glorioso do vocalize do grande lírico é só teu. Sequer há nos discos. É teu. Caruso cantou no teu ouvido. Não lamente sua ausência, porque ausência não há. Aquela voz em glória, no seu melhor momento, depositou-se em você. Na geologia do ser é uma camada de sustentação do teu solo. Ali há húmus, combustíveis, proteínas.. sementes! Ali tuas raízes se fartam. Percebe.

E "Caruso" pode ser um tio, uma avó, a mãe carinhosa. Deus nos permitiu vê-los em solos imortais de ímpar viver. Lembra? A palavra, a canção, o murmúrio, o suspiro, a gargalhada... ah, a gargalhada!... Uma lareira. Gente que nos aquecia. Gente assim não se perde, e nem se lamenta a partida. Se comemora o empréstimo divino.

Tivemos nosso quinhão de tesouro. Pessoas, coisas, vivências. Não, ele não se foi. Vira bagagem. Vira cantil. Vira alforje de estrelas.

Que a alegria comande tuas mesas, tuas ceias, a sombra das árvores de Natal, que tropeços havidos virem começos, que os novos começos sejam de sol, e que aquela tua prece à volta da ceia  traga mananciais de amor que sacramentem a vitória de mais um ano em que o renascer faz o seu melhor:  recomeça.

Felicíssimo Natal pra você!!!



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 11h36
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Adubando o seu dia

**

Votos de uma semana

de flores e frutos.

Se ainda for tempo de sementes,

que a terra lhes seja acolhedora.

O  importante é saber que viver é

uma lavoura.

*



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 09h12
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DICAS DE FILMES (dvd)

 +  +

SANGUE NAS ÁGUAS – Produção húngara dirigida por Kristina Goda. Elenco convincente, reconstituição de época competente e casamento brilhante entre desporto e política, baseando-se numa história real e emocionante. A equipe de pólo aquático da Hungria se prepara para os Jogos Olímpicos de Melbourne, na Austrália. Na preparação, enfrentam a União Soviética, da qual são “proibidos” de ganhar, por questões políticas. Os interesses propagandísticos de Kruschev permaneciam tão stalinistas quanto nos tempos do próprio Stálin.

            Enquanto isso, os estudantes de Budapeste reúnem-se para exigir a abertura do regime. Pelas ruas, começa a revolta, com a adesão entusiasmada da população, que pretendia o arejamento democrático do sistema socialista de estilo soviético. Um dos jogadores da equipe de pólo se apaixona por uma liderança estudantil. Pegam em armas para exigir a expulsão dos russos. Vencem... fugazmente. Porque os russos retornam, esmagando a revolta, enquanto a equipe embarca para a Olimpíada. Sob ameaça de debandada dos atletas em plena competição, para equipes de outros países, resolvem se unir em busca da medalha de ouro, como forma de conforto e honra ao país novamente massacrado pelos taques soviéticos. Só que, no meio do caminho, na semifinal... novo e dramático jogo contra a União Soviética!

            O filme é imperdível, valendo para os que gostam de história, mas principalmente pra jovens destes nossos tempos de individualismo perceberem de que forma juventudes podem se comportar, de forma solidária, buscando ideais e sonhos honrados de transformação da própria realidade. Muito bom filme. Aliás, faz pensar no porquê do Brasil não conseguir fazer um filme decente sobre futebol, por exemplo, com tantas histórias fantásticas que temos pra contar. 

COTAÇÃO DCA: ***.

                                                              _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 

 

A OUTRA – Mais uma produção inglesa sobre os qüiproquós casamenteiros de Henrique VIII na busca por uma mulher que lhe desse um filho homem. O tema já rendeu inúmeros grande filmes de cinema (O Homem que não vendeu sua Alma, sobre os dilemas de Thomas More no caso, é imperdível) e TV, séries (The Tudors, fraquinha, atualmente em cartaz), livros, novelas, romances, lendas, óperas, concertos de Rick Wakeman, etc.

            E é muito interessante mesmo essa história fundadora da Grã-Bretanha, pois sem as peripécias conjugais do soberano, a Reforma Inglesa não existiria e, por conseqüência, o poder de fogo da Reforma européia luterana e calvinista seria diminuído, e a conseqüente plataforma para as revoluções burguesas não estaria dada. Mais interessante é que, após 06 casamentos (afora as inúmeras amantes), embora tenha obtido de sua terceira mulher, Jane Seymour, o herdeiro homem que tanto buscava (após a morte do pai, coroado como Eduardo VI, reinou pouco, falecendo adolescente) sobreveio o soberano mais viril que o país conhecera... Elizabeth, filha de Ana Bolena, que consolidaria o poder e a unidade britânicas, como Elizabeth I, a Rainha Virgem, sob cujo reinado austero floresceriam o teatro inglês de Shakespeare e Marlowe, as conquistas marítimas de Fracis Drake e o pensamento de Bacon. História, aliás, também contada em grandiosos filmes. Vale conferir, se você ainda não o fez, especialmente os dois dirigidos com um barroco bem “bollywwodiano”, pelo indiano Shekar Kappur, com a notável Cate Blanchet.

            “A Outra”, baseado numa novela, trata das disputas das irmãs Bolena, Ana e Maria pela atenção do soberano em sua alcova real, impelidas por um pai inescrupuloso, em busca de títulos de nobreza e favores reais. Uma fotografia de tirar o fôlego, com direção de arte soberba, e geniais enquadramentos de câmera nos remetem, em cada take, para dentro de verdadeiras pinturas a óleo clássicas e deslumbrantes. Dá pra pegar o fotograma e pendurar na parede. Dirigido por um estreante, Justin Chadwick, que demonstra mão segura. Desempenho grandioso da lindíssima Natalie Portman, como Ana Bolena. Eric Bana, (o Hulk de Ang Lee), faz um atormentado Henrique VIII, mais delicado que o que se mostrou até agora em outras obras levadas à tela. Scarlet Johansson, assim, assim, mas não faz feio. De fundo, a presença sempre marcante da mais sexy atriz feiosa que é a esplêndida Kristyn Scott-Thomas.

            O filme ilustra a condição da mulher na sociedade de então, ali posta como o mero ventre procriador, como objeto de consumo dos apetites reais e, pior, como moeda de troca para inescrupulosos jogos de poder. Mostra Ana Bolena buscando manipular esse jogo em favor próprio, como uma sobrevivente que tenta se manter à tona, através de expedientes nem sempre escrupulosos.

            O final, trágico, é conhecido, com Ana executada por acusações, que - tudo indica - eram falsas, de traição, bruxaria e incesto. Mas Ana Bolena é a mãe de Elizabeth. Natalie Portman, no fim das contas, venceu. Como aliás, vence todas desde que estreou coadjuvando Jean Reno, ainda menina, no bom O Profissional, de Luc-Besson.

COTAÇÃO DCA: ****.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h28
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VISITA

VISITA

                                                                     Denilson Cardoso de Araújo

 

No hospital, o homem na cama.

Na cama está, como se a cama o vestisse.

Está no quarto como se o quarto fosse sua nave.

No quarto, viaja-se a imensidão.

 

Porque o homem quieto, espera o fim,

a passagem, o novo ciclo, a fronteira,

conforme a crença de quem olha.

 

Seja lá o que for, o momento é do silêncio.

Nada, ali, há razão que alcance.

A fé às vezes se arrisca e só arranha um vislumbre.

Mas revelação, transparência, não há.

 

Entra uma luz pela janela, como uma nuvem

de fracas agulhas, douradas, porém frias.

Há outonos pousados nos olhos do homem

que arqueja entre tubos. Como ungüentos.

 

Fraco, está o homem. Exausto, pequeno.

O homem ali, em sua nave, apto às reflexões.

 

Passo a mão em seus cabelos.

Seguro sua mão que agora murcha.

Com palavras estreitas, mas de lã,

trago a lembrança dos feitos, dos fatos,

vividos pelo homem bravo.

 

Digo as bênçãos possíveis.

 

(Devia ter cantado pra ele.

Na hora, não me ocorreu.

Música é a palavra da alma.

Devia ter cantado!)

 

Brinco com o homem que ali está

falando do homem que ali existia

e que hesita, no portal de partida.

O homem prestes.

 

Ele sorri. Levemente move a mão.

Sacode fugazmente a cabeça.

Vejo que, na verdade,

 é o mesmo homem de sempre que está ali,

que ouve, reconhece, responde,

embora não mais verbalize.

O mesmo homem com sua história,

sua memória e sua identidade.

 

E mesmo que só quieto, ali, estivesse,

ainda que pouco só respirasse.

O mesmo homem.

A mesma vida. Sagrada.

Que escoa. E vida, nunca é à toa.

 

Por isso não compreendo

os que precipitam momentos,

desprezando esse fiapo de vida que resiste,

heroicamente, desempenhando seus mandatos.

Gotejando vida que é sempre coisa rica,

coisa que não se desperdiça.

 

Saí dali, como sempre,

impactado em mistérios e humildades,

mas cevado de fé na vida que, seja rio ou arroio,

seja em começos ou em confins

deve ser com garbo vivida, porque

vida é sempre edificação gloriosa.

 

Assim Deus a fez. Assim Deus a cobra.

 

*.*



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h07
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DICAS DE CINEMA

FIM DE SEMANA DE MOLHO. TENDINITE, GRIPE, CANSAÇO, CHUVA E FALTA DE CARRO. FESTIVAL DE CINEMA BRASILEIRO LÁ EM CASA. RECOMENDO TODOS:

 

CHEGA DE SAUDADE de Laís Bodansky – com Leonardo Villar, Tonia Carrero, Stephan Nercessian, Cássia Kiss, Maria Flor – Você  é romântico (a)? Gosta de delicadeza com densidade? Então não perca este filme, que se passa numa noite de baile num salão de danças. Elza Soares é a crooner do baile, quer mais? O elenco de apoio dança muuuiito. Laís, competentíssima, que já nos impactara com seu primeiro filme (o forte Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro), agora nos acaricia o coração, com essa pequena obra-prima, que remete  a 'O Baile' de Ettore Scola, só que com palavras. E que belas palavras (o roteiro é excelente). Há muita improvisação, câmera pulsante de Walter Carvalho, trilha sonora pra comprar e ouvir no carro. Não percam. Especialmente, jovens de todas as idades, viu? Não percam! Um filme universal. Deveria ser nossa indicação ao Oscar.

Cotação DCA (eu, oras!): entre 05 estrelas: *****

 

TRAIR E COÇAR É SÓ COMEÇAR a peça de tantos anos de sucesso, de Marcos Caruso, dirigida por Moacyr Góes – com Adriana Esteves, Bianca Byington, Cássio Gabus Mendes, Ailton Graça e outros. Sou suspeito, adoro teatro, e gosto de teatro filmado (sei que sou exceção). Aqui a transição palco - celulóide não fez mal ao texto. Garantia de boas risadas, numa trama cheia de confusões. Brilho especial de Adriana que faz uma hilária empregada doméstica.

Cotação DCA: ***

 

MUITO GELO E DOIS DEDOS D’ÁGUAde Daniel Filho – com Mariana Ximenes (iluminada, provando que é mais do que a garotinha meio otária das últimas novelas que fez e mais a grande atriz que ponteou em JK, a minisérie), o sempre competente Ailton Graça, o esforçado Tiago Lacerda e a imortal Laura Cardoso. Gargalhadas leves, que remetem aos bons tempos da Atlântida, só que com um leve pitada de pimenta e uns dedos de sarcasmo. Um quê de Almodóvar aqui e ali, funcionam bem. Vale.

Cotação DCA: ****

 

CAIXA DOIS da peça de Juca de Oliveira – direção de Bruno Barreto – com Fúlvio Stefanini, Cássio Gabus Mendes, Daniel Dantas e Zezé Polessa. As agruras desse nosso país cheio de corrupção viram boas risadas nesse debate surreal entre salafrários sobre o destino da grana duma falcatrua. Especialmente recomendado para bancários e empregados em geral, de lugares reestruturados, “modernizados” e “energizados” pelas informatizações e reengenharias da vida. 

Cotação DCA: ***



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h32
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AURÍCULA ÁUREA

Não ficou surdo, o Maestro Beethoven...

Ficou mais atento ao que dizia a alma .



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h25
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BEETHOVEN

 

 

Trancado no silêncio

daquele estúdio etéreo de verniz abandono e nuvem esgarçada,

com os olhos cerrados como as asas negras de duas pombas bêbadas,

a cabeleira vasta despejada na  angulosa têmpora,

esta que vai,

apertada sobre a chapa de ébana cauda recolhida do piano,

à moda dum índio adivinhando a caça

com o ouvido varrendo o chão da estrada,

o compositor de ouvidos imprestáveis a normais alentos

acaricia o veludo dos teclados mudos e

na débil vibração da mariposa asa do pensamento

ciciando intentos sobre as tensas cordas embutidas,

tenta seduzir o instrumento duro

para cálice de toda a fabulosa harmonia

que revolve-se em piscosos oceanos de alvorada

nos incendiados planetas da sua vultosa alma.

 

Seu coração traz himalaias embandeirados,

vencedores ícaros, planícies conquistadas,

cavalgadas de crepúsculo, águias com fogo em asas.

Pulsa todo o sangue da essência da existência

na quentura com que o peito, batendo suspiros,

recorda ao instrumento a saudade filial do bosque,

na seiva antes adormecida na madeira aparelhada

e agora, em urgência, convocada.

E ali ficam,

o piano nunca mais móvel, instrumento ou  artefato,

e nunca mais imóvel, mas ser vivente,

antena, ouvidos, receptáculo, mensageiro,

colhendo de outro ser vivente, gota a gota, a prosódia do milagre,

até que, como se fosse a única coisa que ao mundo escasseasse,

a lágrima clave desce em paixão cristalina pelos olhos apertados e,

caída na madeira, e escorrida no marfim,

a este toque a criação se faz completa,

o alumbramento se vê,

sem que se veja movida uma tecla ou sonora onda qualquer,

um reles solfejo sequer.

Surge então, a imortal sinfonia do cárcere do silêncios vencidos,

dos desertos derrotados, das prisões derretidas,

porque o piano lembra de suas chuvas, quando bosque era

e o marfim recorda seus pastos quando em bicho andava,

e assim o compositor sem tímpanos,

com a alma que se multiplica e enfim, fala,

ouve, do que aos outros é nada,

soante e parida, um bezerro agora há pouco nascido,

sua música sublime de tempestades adestradas,

de meninos cantando, de pedras soando, de brisas,

de rios com lavadeiras salmodiando,

de pássaros clarins sobre campônios e heróis festejando,

e a reproduz nas catedrais dos séculos ecoando seus triunfos,

seus carinhos, suas vivendas,

por sobre todos os silêncios,

enchendo todos os vasos do universo e

transbordando de estrelas todos os recipientes

como vinhos melhores que chegam da Galiléia por último,

em Caná multiplicando em ternuras de luz macia,

a imortal alegria.

Assim Beethoven faz, a cada ouvida,

essa casa larga, quente e bem servida

onde toda alma viva pode aprender seu lar.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h20
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Porque hoje ajudei a fechar acordos...

Pequeno manual de vencimento de abismos

 

Denilson Cardoso de Araújo

 

Lá estava, aquele abismo,

marejado de ventos.

Invencível, um invisível

ciclope faminto.

Uma garganta,

de susto e aragens.

 

Pessoas travadas nas

bordas dessas certezas

de rocha.

Pessoas cravadas

no piso,

com receios da queda,

estancando em gastas raízes

e mofos tremores.

 

De repente,

surge uma pluma

serena, divina, ondulando,

e ao abismo atravessa.

 

Como um lírio voando,

como um pensamento...

...e na pluma, logo,

a idéia de asa,

como um diamante,

se engasta.

 

E leva, a asa, em seu rastro

um cordão, um fiapo,

de alvo algodão.

Entre as ásperas rochas

o fiapo, tranqüilo,

se amarra.

 

Ali,

um fiapo, altaneiro,

com o sol no seu fio,

com formigas andando.

 

Resistindo aos ventos,

ignorando altitudes

um fiapo, a esperança.

 

Das margens do dilema

as pessoas enxergam o fiapo,

e, no fiapo, o óbvio ouro

da idéia de ponte.

 

E aí se multiplicam as asas

e os fiapos se enlaçam,

escravizando o impossível

em cordéis de epopéia,

aços de amarrar

horizontes.

 

Hoje ajudei a fechar acordos.

Bom, quando aprendemos

a linguagem das pontes.

 

Hoje ajudei a fechar acordos.

E aprendi.

Toda ponte, em começos,

é só um cotovelo de pluma,

uma coisa fiapo,

um barbante.

 

*.*.*



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h33
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MISS FÓSFORO

Para Adriana Elias    

     Tenho uma amiga que está triste.

     Na vida, acontece, por vezes, tristeza. É como a hora em que a noite é mais profunda. Ela equilibra o meio-dia. Ninguém consegue viver sempre assim, meio-dia. Mas pela mesma razão, ninguém pode se estender em meias-noites. A vida é equilíbrio. Temos que amanhecer, florescer nossos sóis, os melhores que encontrarmos em nós, porque  o dia precisa de nossa energia pra atravessar as fronteiras do tempo. Há trens que se movimentam por nossa energia. Pessoas cujo vigor vem da eletricidade de nossos corpos a postos, irradiando sentimento e bondades. Claro que seremos crepúsculo, às vezes, teremos revoadas de boca da noite, mas não podemos ser meia-noite pra sempre. 

     Eu sei que, às vezes, é confortável, a meia-noite, né? Dá uma vontade de botar um disco triste do Renato Russo e ficar ali, naquela caverninha quieta, um escurinho onde ninguém incomoda... tipo o Profeta Elias depois da violenta batalha contra os profetas de Baal. Ali, em I Reis, 19, naquele medinho que é um descanso torto, o guerreiro de Deus cansado de batalhas, querendo ser meia-noite. Oh, Pai, eu me dôo tanto.... Meus ossos doem, minha cabeça treme, meu coração está oco, estou meio esvaziado de mim... Me deixa aqui, na caverna, Pai, me deixa...

     Mas, engraçado, é que Deus chama Elias pra fora da caverna pra falar com ele. Deus não admite prosear com enterrados, afinal. Nem com mumificados também. Por isso, Jesus grita a Lázaro, esse mesmo, até agorinha defunto: "Sai para fora!". Deus gosta de luz acesa. Podia entrar e entupir as cavernas de luz. Mas procede o entendimento: seres de caverna continuarão seres de caverna, se a luz for até eles. Apenas, enxergarão melhor, mas sempre dentro da caverna, ora bolas! Além disso, a luz que mergulha em caverna se furta a aquecer o dia de tantos que trafegam nos vales e campinas da vida, movendo a máquina do mundo. O ser de caverna precisa abandonar a caverna...

     E a tristeza é mesmo, uma tentadora caverna. Só que enquanto lá estamos, há plantas que precisaríamos regar, que vão definhar, há livros que nos aguardam, ansiosos, escritos só pra nós, pra preencher um lado do nosso coração e que morrerão em traças, com sina descumprida. Há crianças nos esperando porque há um afago que é da nossa exclusiva e predestinada mão que deveria partir... Há poemas a escrever com palavras que só nós carregamos. Paredes a derrubar, pontes a construir, uma choupana de barro que nos espera pra de branco caiar-se...

     Tristeza é uma poltrona funda, cheia de almofadas de justificativas e afagos ao próprio ego doído e machucado. Quando menos percebemos, aquela cadeira vai nos agarrando, entranhando-se em nossos poros, nos engolindo, amassando, aprisionando, transformando-se numa grande mão silenciosa e cruel que não mais nos larga e à qual a gente se acomoda. Podemos até levantar, mas a cadeira estará nos envolvendo, como uma gosma viva, um fardo, um peso, uma roupa feia, um alienígina que nos suga. E a gente, ali, andando torto, andando pesado, seres-cadeira.

     Pois bem, resolvi tentar alegrar o coração dessa minha amiga, e postei no meu blog um vídeo sobre uma cena maravilhosa de um filme médio do John Boorman, com o John Voight, Deliverance. E coloquei o seguinte comentário:

"O retardado mental que era um gênio da música. Esta cena imortal do cinema ensina que as pérolas podem estar no improvável. Não devemos desprezar ninguém. Todos temos um toque de divindade. Cabe a cada um acendê-lo no outro. Cabe a cada um ser o fósforo que ajuda a fazer a lamparina calada ecoar seu brilho." (Denilson Cardoso de Araújo)

     É uma cena linda, em que o garoto, que ninguém dava nada por ele, retardado, desprezado, lixo humano, de repente, descobre-se: tinha música, e música graúda, de boa saúde, dentro dele! Mas essa chama só aconteceu porque alguém apertou a corda certa do violão que tocava sua alma. Quantos por aí, esperam que façamos o mesmo?

     Daí, na sequência, escrevi pra essa amiga e avisei da postagem, chamando-a de "Miss Fósforo" e cobrando responsas!!! rsrsrs. Ela riu muito e tal e coisa. Então postei de volta o que segue:

     "Vai dando teu jeito aí... Pois se é miss, tem que circular essa estampa, que já bem saquei teus amigos reclamando... e se fósforo é, tem que sair por aí acendendo as coisas... Solta essa Xiquinha, moça!!! Aliás, tristezura dá samba, cê sabe, e dá blues, também. De um, sai carnaval e de outro sai rock. E de ambos, resultam formas de alegria. Se tristeza persiste, pega ela, corta com uma faca e faz um castelo... rsrsrs... beijos."

     Que todos possamos fazer o mesmo quando a tristeza chegar. Fácil não é. Mas o necessário, é o necessário. Não se deve aceitar naufrágios.

     Prá quem quiser, aqui está a cena: http://www.youtube.com/watch?v=Uzae_SqbmDE



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h04
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SUTILEZAS

Mariana (a maníaca das entrelinhas) colocou no seu blog esta foto minha (que está no meu orkut).

 Aí deu vontade de fazer esse poeminha rápido pra ela.. Um beijo, querida. A vida é mais simples do que parece.

SUTILEZAS

                                              Para Mariana

 

O tomate dorme

seu sangue

na pedra.

A pedra morde

com sua boca de greta

o tomate.

O sol derrama nos dois

sua sorte.

Há pérolas,

no coração do tomate.

Há grãos,

na crosta da fronte

da pedra.

Há letras,

que se unem

pra fazer no seu cerne,

um tomate.

Um lânguido C

que engancha sua boca

no dorso de um D.

Mas tudo, assim,

só tão luz-do-dia

porque, sobre as coisas,

preciso, obrou antes

o inciso fio da faca.

Só assim é

que a gente descobre

que há um leito onde é rio.

Só assim é

que abaixo da crosta

a gente algo sabe.

Assim é que sobe

a alma da gente

do chão do comum.

Assim é que se vê

que o comum,

é o milagre.

 

Tem que

descascar as coisas,

os tomates, os sóis e as pedras,

pra enxergar suas pérolas,

grãos, e o algodão

do miolo.

Pra descobrir o quanto,

em alfabetos gentis,

as coisas tanto

se encaixam.

Assim Deus as quis.

A gente é que, de tonteira,

as estraga.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 14h56
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EXODUS

 

 Exodus

Denilson Cardoso de Araújo

 

À beira rio,

me olhando

lá embaixo,

percebo.

Águas espelham.

Espelhos, derretem.

Derretimentos

secam em pedras.

Grossas pedras,

de água batidas,

areias viram.

E areias vivas

tornam-se espelho.

Basta um forno,

um fogo e um

crepúsculo.

 

Tudo escorre,

Heráclito diz:

-Diferente agora

o rio de ontem, ou

mudada a pessoa

que o atravessa.

Na verdade,

contesto.

Tudo o mesmo.

A verdade é

o movimento.

A mudança é

que é a raiz

das coisas.

O escorrer silente

é que é a solidez

das gentes.

Deus não estanca.

Move-se.

Por isso,

algumas fés

se perdem.

Querem repouso.

Querem pedra.

Mas a pedra

é transitória.

Véspera de espelho.

Espelho, o ontem

da água,

que ora me

reflete.



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h18
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SOBRE MORAR NUMA LIVRARIA OU NUM SEBO

Descobri uma comunidade que quer morar numa livraria.  Lá conheci uma companheira de sofrimento, a gaúcha Adriana Elias, que gosta de sebos como eu, mas que padece de alergia, como eu. Após trocarmos nossas receitas médicas (polaramine, eu e fenergan, ela), escrevi o recado abaixo, pra ela, e que serve de conforto a todos os que de mesmo mal padecem. 

Quando começarem a perseguir poetas e leitores (não falta tanto assim...) nos esconderemos nos sebos, dopados e com máscaras de algodão, e ali viveremos, entre traças e estantes imensas, lendo à luz de velas em toco. Quando acabarem-se as velas, principiaremos a nos iluminar com a fogueira de capas de livros... se acabarem as capas, começaremos por acender os livros que decoramos. Um dia precisaremos escrever na própria pele as letras daqueles que ainda não sabemos para que possamos queimar seus papiros em cerimônia contrita... até que um dia nos achará, uma libertária brigada de poetas sobreviventes... e estaremos lá, meio esquálidos, meio verdes, entupidos de letras e antialérgicos, mas sobrevoados de borboletas...  Nos deitarão em canteiros, e árvores de livros nascerão de nós, e crianças virão colher as letras que guardamos...



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 13h07
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